sábado, 2 de maio de 2015

Doce Infância (ao avesso)
Daniele Souza15:21 0 comentários

Há algum tempo escrevi o texto Doce Infância, onde eu dei destaque ao lado bom de ser criança e a importância de não deixar nossa criança interior morrer. Pois bem...
Infelizmente (ou felizmente), quando estamos defendendo algo às vezes deixamos de lado certos pontos importantes, para que de fato, possamos defender nosso ponto de vista com foco.
Diante da repercussão da discussão sobre a possibilidade de diminuição da maioridade penal, venho hoje colocar esses certos pontos os quais deixei de lado no último texto.
Não me impressiona nada ver uma grande quantidade de pessoas (inclusive políticos) defendendo a diminuição da maioridade penal num país onde, pela lógica dessas pessoas, é muito mais fácil tirar os "bandidos" da rua e amontoa-los numa cela com a doce ilusão de que dessa forma o problema de todos com a violência será solucionado. Não sou nenhuma expert do tema, e nem preciso ser para afirmar que não se resolve problema algum tratando a consequência, ignorando sua causa. 
Não me impressionada nada ver pessoas defendendo a diminuição da maioridade penal, num país onde, em plena era da informação, ainda há aquela grande parcela de pessoas que optam por reproduzir informações (ou seria desinformações?), num país onde a mídia ainda faz a cabeça das pessoas facilmente, e neste caso, faz questão de explorar de maneira negativa a imagem de pessoas em conflito com a lei. 
"Vagabundo! Preferiu ganhar dinheiro fácil, traficando, roubando, à estudar", é uma das frases que mais ouço quando se fala neste assunto.

Repito: nada disso me impressiona. Pois sei, que é muito mais fácil julgar o outro sem conhecer sua realidade (fazemos isso o tempo inteiro), sem pensar, que elementos de fato, contribuiu para a construção daquela pessoa. Ninguém é o que é "porque sim", ninguém faz o que faz "porque sim".
Para um jovem da periferia*, que não tem base familiar estruturada, que não tem quem o incentive para ir à escola e passa o dia alheio nas ruas, alguém "de maior" se aproxima e faz a cabeça desse jovem, o convida pra fazer algo que "vai dar dinheiro". Quem vai dizer a ele que esse caminho é roubada? Não é uma questão de escolha para ele, que muito provavelmente não tem quem o olhe, quem o aconselhe. Ele simplesmente acredita que é o único caminho. E vai.
Lá se foi mais uma criança perdida para o crime.
Parece que a doce infância
Ficou amarga.

O que aconteceu com esse jovem, pode ter sido o mesmo que aconteceu com seus pais. Seus futuros filhos (se ele chegar a ter), provavelmente irão seguir o mesmo caminho. É um ciclo vicioso.
É negligência, antes de tudo, do Estado pois o Estado deve assegurar boa educação e boa qualidade de vida à todos, de modo igualitário, entretanto não o faz. O Estado falhou com este jovem e quer falhar mais uma vez, o colocando atrás das grades, onde possivelmente, irão trata-lo pior que bicho. E ao invés de ressocializa-lo, irão forma-lo um criminoso de alto potencial.

Não defendo que pessoas em conflito com a lei (seja jovem ou adulto) permaneça impune. Defendo que, no caso do adulto, haja de fato uma política de ressocialização e reintegração dentro dos presídios, e isso não se faz em presídios super lotados e com más condições, tanto dos detentos permanecerem lá, quanto dos funcionários trabalharem. Isso é o que mais acontece, infelizmente.
No caso do jovem, defendo a política de medidas socioeducativas, que embora não seja 100% eficaz, dá a oportunidade do jovem pagar pela sua infração e repensar seu ato, trazendo a possibilidade de não voltar a comete-lo.
Tanto a ideia de ressocialização, nos presídios, como as medidas socioeducativas já existem, óbvio. O que coloco aqui é o cumprimento dessas ideias. Não são todos os lugares que funcionam e quando funciona não é  exatamente como poderia ser. Se realmente houver o melhoramento destes pontos, aliado ao melhoramento de outros pontos,  boa parte do problema seria solucionado, ou no mínimo, amenizado.

Diminuir maioridade penal, é cometer injustiça social com aquele jovem que teve sua infância violada pelo Estado e não tem quem olhe por ele.





*P.S. Só quero ressaltar que tomei como exemplo do jovem da periferia. Não generalizo que todo jovem da periferia comete crimes! Isso, segundo o meu ponto de vista, vai além de morar na periferia ou não, a base familiar e outras questões são decisivas. Jovens de classe média e alta também cometem crimes, entretanto, prefiro não aprofundar este viés, sobretudo porque, na questão discutida, todos sabemos que a classe média e alta não é afetada. A combinação: polícia corrupta + leis que não funcionam como deveriam + papai e mamãe com dinheiro no bolso... Por si só já explica.

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