quinta-feira, 23 de abril de 2015

Um gole de descontentamento
Felipe Vale09:12 0 comentários



Dose. No copinho. Onde? Naquela mesinha. Sim, todos os dias. Todos os dias sempre terá uma dose de descontentamento para se beber, naquela mesinha ignorada que temos em casa, no trabalho, ou seja em qual lugar for; sim, na mesinha, na mesinha projetada pela mente ou não necessariamente, mas sei que faz parte da rotina de muita gente, da minha pelo menos sim. Todo dia faço questão de beber a minha, mas eu não tenho culpa se a Dona Circunstância tem o prazer de me servir sempre que pode, eu não resisto e vou até a mesinha, pegar a minha dose gratuita. E vou falar, não sei se tem álcool mas tenho a plena certeza que já me viciei faz tempo, e sempre acabo tendo o efeito colateral de acabar descontente por acabar tomando meu gole de descontentamento. O gole de descontentamento que pede mudanças mais profundas. Mas por quê a Dona Circunstância sempre vem me visitar? Todo dia ela me conta uma historinha, as historinhas dos defeitos das pessoas, dos meus defeitos, dos defeitos do mundo, das coisas ruins que acontecem na nossa rotina, da minha preguiça, do meu acomodamento, e ela se aproveita, aproveita que sempre presto atenção e fico ali sem fazer nada, só observando e escutando os seus gestos, a sua maneira de me contar, e aí ela me prende na conversa com ela, a Dona Circunstância, inteligentíssima, me mantém no foco, traz a garrafa, parece um liquor, abre a tampa, e derrama com bastante cuidado todo o litro de descontentamento, para eu beber, enquanto ela me mostra o jeito que as coisas são, os jeitos que as coisas foram, e talvez o jeito como elas irão ser. E eu fico ali. Procrastinação, ela me disse. "Meu filho, você está procrastinando!" ela diz. Sei que não é isso que ela quer, ela quer que eu pare de me viciar no descontentamento, ela quer me tirar do vício, mas por quê ela me traz sempre o copinho e garrafa, me chama ali e eu fico. Ah, é tão acomodativo. O que eu não consigo é negar, ela me oferece a dose, ela não me obriga a tomar, e não há nada de errado em dizer não às vezes. Ela me oferece para me dar o maior conforto, mas sabe que não sou obrigado, afinal ela quer que eu mude, ela quer uma atitude. Uma atitude. Atitude? O que eu posso fazer? O que eu posso fazer para mudar? Por que é difícil parar de ser descontente com o mundo, consigo mesmo e beber uma dose de Atitude? I've been drinkin, I've been drinkin. Watermelon? Não hoje. Acho que já a pedi que me trouxesse Atitude alguma vez, de boa marca, mas talvez Circunstância está velha demais para ter me ouvido, ela já é idosa, talvez eu tenha que gritar ou apenas falar um pouco mais alto. De ficar descontente com tudo já estou farto, aquela dose diária já não me faz mais bem, deve ser um tipo de maconha, só que essa dose não me deixa no alto e sim mais no fundo do poço ainda. É hora de ir atrás de mudanças, é hora de experimentar novas doses melhores que essa, mas que me façam bem e me façam ir atrás do que eu chamo. Está todo mundo surdo, eu sempre chamo, eu juro. Ninguém escuta. Talvez seja porque eu fico ali no cantinho, na mesa, observando, escutando. Entorpecido. Prometo que vou gritar para um dose de Atitude das próximas vezes, e talvez deixar a mesinha ali, mas sempre bem acompanhado de Dona Circunstância, para que eu ajude a incrementar as historinhas e dar novos fins. Por favor, uma outra dose. De outra substância. Por favor.
Categoria:

0 comentários

Postar um comentário